|
23-Set-2009 |
Docente defende «Uma colónia modelo para defesa do colonialismo»
O arquipélago de Cabo Verde foi um caso à parte da colonização portuguesa, sendo utilizado pelo Estado Novo perante as autoridades internacionais como um "pequeno Brasil", um exemplo de integração multirracial e multicultural. Sempre que Portugal era confrontado com a questão colonial na ONU Cabo Verde era comparado com o Brasil - um exemplo da colonização multirracial e multicultural. As restantes colónias portuguesas "eram brasis ainda por concretizar". Esta tese é defendida pelo investigador Sérgio Neto em "Colónia Mártir, Colónia Modelo. Cabo Verde no pensamento ultramarino português (1925-1965)", obra a apresentar esta quarta-feira em Coimbra, com a chancela da Imprensa da Universidade.
Fustigado pelas fomes e pelas cíclicas secas, Cabo Verde não era para o colonizador um território de riquezas, como Angola, Moçambique ou S. Tomé e Príncipe, mas "um lugar à parte na ideologia ultramarina portuguesa a partir dos anos 30 do século passado". "Dir-se-ia que a sua importância não passou tanto pelo valor comercial, mas pela "imagem" de colónia africana mais "civilizada" e até de colónia mais aparentada com a metrópole", acrescenta.
Sérgio Neto realça que o cabo-verdiano é o primeiro a usufruir de cidadania plena, desde a revolução liberal de 1820, enquanto que em outros territórios de dominação portuguesa isso só aconteceu em 1961, quando começava a guerra colonial.
Foi das colónias portuguesas - acrescenta - aquela que mais cedo teve imprensa, e um liceu frequentado por caboverdianos, contribuindo para a formação de elites letradas, ao ponto de surgir o "falso mito" de que aí havia mais pessoas a saber ler e escrever do que em Portugal.
No entendimento de Sérgio Neto, aquele arquipélago era como que um prolongamento dos Açores e Madeira, e "uma espécie de reservatório de pessoas cultas, de pessoas ligadas às letras. Um reservatório de quadros de segunda linha".
Ao mesmo tempo que o Estado Novo exaltava Cabo Verde como "ponto avançado de Portugal, para continuar a gesta colonial", "fazia jogo duplo", pois ao dar a ideia de abertura para a formação de quadros, controlava-os, e encaminhava-os para cursos técnicos", explica. João Estêvão, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, que assina o prefácio da obra, afirma que Sérgio Neto constrói um percurso em torno das diferentes visões do arquipélago, tanto numa perspectiva do imaginário colonial português, como das diferentes visões cabo-verdianas, por isso, "revisita a problemática do trinómio ativismo/regionalismo/nacionalismo e do binómio Europa/África". A leitura aqui proposta - salienta - "traz-nos contribuições muito importantes, em particular no que concerne às possíveis inter-relações entre o regionalismo cabo-verdiano e o luso-tropicalismo do Estado Novo.
Sérgio Neto, docente do ensino básico em Ovar, realizou o trabalho como tese de mestrado, na sequência de um prémio de estímulo à investigação atribuído em 2001 pela Fundação Gulbenkian. |