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Maestro António Vitorino d'Almeida «Michael Jackson foi um genial bailarino que fez umas musiquinhas» O palco do auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro recebeu, recentemente, um concerto da Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida por um convidado ilustre: António Victorino D´Almeida. Mas, desta vez, António Victorino D´Almeida aproveitou a estada para gravar um disco com a Orquestra Como surgiu esta oportunidade de dirigir e gravar com a Orquestra Filarmonia das Beiras? Trata-se de gravar um disco com duas sinfonias, uma que é dedicada aos 700 anos da fundação de Viana do Castelo e a outra que é dedicada à cidade do Funchal. É uma tentativa de realizar uma missão impossível com uma orquestra portuguesa. Missão impossível porquê? Porque não há estruturas no nosso país. Foi uma sorte incrível conseguir que a Filarmonia das Beiras estivesse, por acaso, livre nestes dois dias. Se quer imaginar um pesadelo é gravar um disco com uma orquestra em Portugal. Há músicos, técnicos, público, salas, só não há vontade política. Porque alguém tem de apoiar, e mesmo que haja entidades privadas interessadas, não há tradição de mecenato neste campo. Além disso, a lei do mecenato em Portugal é perfeitamente ‘staliniana’. Quem decide se alguém pode ser beneficiado pela Lei do Mecenato é o Estado, é o Ministério da Cultura. O mecenas devia decidir a quem quer dar o seu dinheiro, mas não, é o Governo que decide, escolhendo entre os seus amigos, tios e primas. Esta é a realidade.
Quase não falta nada… Até salas e auditórios temos em número e em esplendor que nem a Alemanha ou a Áustria sonham ter. Não servem para nada, mas está bem. O problema é que a maioria dos músicos não está integrada em orquestras e não tem, portanto, emprego fixo, vive de biscates. O telefone toca e a gente vai. Daí que resulta que é completamente impossível juntar, por exemplo, um grupo de oito músicos: seis podem, dois não podem. Depois, podem sete e outro deixa de poder. Por isso é que digo que fazer um disco em Portugal é a pior coisa que existe. É tão estafante e frustrante a pessoa querer, saber que tem toda a matéria-prima e só não consegue é a organizar a coisa. Esta é então uma circunstância excepcional? Sim, quando se consegue um caso como este que se está a passar em Aveiro, em que vou ter a Filarmonia das Beiras por um dia disponível para gravar uma sinfonia. Sim, porque no dia seguinte, todos os instrumentos de percussão já não estão livres. Por isso, se grava a sinfonia que tem percussão num dia e a que não tem no outro dia. Vislumbra uma solução que altere este estado de coisas? Eu não vejo nenhuma solução porque as entidades responsáveis, em Portugal, são analfabetas em música e gabam-se disso. É um motivo de orgulho dizer “eu não percebo nada de música”. Há dias, fiz um programa de TV com o Emanuel, o homem do “Pimba”, e estávamos a tentar explicar que há camelos e dromedários, ou seja, a música ligeira e a outra não são a mesma música. Os Beatles e o Beethoven não têm nada a ver. Utilizam sons mas são estruturas completamente diferentes. Diz-se que o Michael Jackson foi um grande músico e, se isso é verdade, então o Stravinsky foi um grande bailarino. O Michael Jackson foi um genial bailarino que fez umas musiquinhas (risos). Para os nossos ministérios, também é assim: É tudo igual. Preparar uma gravação difere muito de preparar um concerto? Preparar um concerto é uma coisa e preparar uma gravação é outra. Um concerto prepara-se para ir do princípio ao fim. Preparar uma gravação é ensaiar pedaços de 20, 40, 60 segundos… Eu vou gravar depois à Bulgária e vou usar um outro esquema. Os músicos vão ver a música pela primeira vez, vão lê-la e ensaiamos um minuto e gravamos, esquece-se logo depois e passamos ao minuto seguinte. (in Diário de Aveiro - edição impressa) Nota: A Orquestra F. das Beiras actua no Centro de Arte de Ovar no dia 28 de Nov. |