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04-Jan-2010

Edwiges Helena: «Às vezes é dificil encontrar inspiração»

Este ano compôs menos temas e ensaiou menos troupes de Reis, mas mesmo assim, continua a dar seguimento a uma senda familiar: é neta de António Dias Simões, a quem é atribuído o início desta tradição

edwigesConsta que foi o seu avô o mentor da tradição do cantar dos Reis em Ovar, em tudo diferente das «Janeiras» que se ouvem no Norte do País. Tem alguma recordação dele?
Eu não conheci o meu avô, embora o ame sinceramente. Foi com ele que nasceu esta tradição do cantar dos Reis em Ovar, em finais do século XIX. Ele gostava muito de música e tocava muito bem. A minha mãe tinha apenas cinco anos de idade, quando vinham crianças para Ovar cantar aquelas músicas, sempre as mesmas naquela altura do Natal. Ele achava muita graça àquilo e no fim presenteava-as com bolos. Um dia, começou a pensar como seria iniciar uma coisa deste género, mas mais bonita. Foi então que falou com um amigo que vivia no centro de Ovar e combinaram fazer uns ensaios para ver como funcionava. As letras eram do meu avô, que também fazia as músicas. Depois de ensaiadas, cantavam e tocavam pelas casas que os convidavam. As pessoas gostaram e começaram a chamá-los de Reis. Assim ficou até hoje.

O que é que diferencia o Cantar dos Reis de Ovar do típico Cantar das «Janeiras», que se ouve em quase todo o país, em especial no Norte?
As canções que o meu pai e o tal amigo compunham eram muito singelas, mas eram originais, ao contrário do que acontece com as «Janeiras» que nunca variam. As troupes do Reis em Ovar apresentam, geralmente, temas originais, compondo-se a sua prestação de três temas: Saudação, Mensagem e Despedida. Por outro lado, o acompanhamento musical dos Reis é bastante diferente das «Janeiras», pois em Ovar utiliza-se muito o bandolim, a viola, o bano e alguns instrumentos de sopro. O meu avô foi o fundador da pioneira Troupe dos «Velhos» até ao dia em que, por estar bastante doente e cansado, a abandonou. Esta deu lugar à Troupe dos «Novos», constituída pelos meus tios e os amigos. Depois dessa, surgiram inúmeras troupes, num movimento que se mantém até hoje.

Sendo uma tradição de família, quando é que iniciou a sua actividade junto dos Reis?
Quando a minha mãe veio do Brasil trouxe-me com ela e internou-me num colégio de freiras, mas eu não gostava de estar lá. Permaneci por lá algum tempo, mas regressei para junto da minha mãe, onde prossegui estudos. Quando eu já era uma mocinha, a minha mãe pedia-me para eu a ajudar com as troupes. Recordo-me de um ano em que a minha mãe teve nove troupes de Reis para ensaiar e para fazer letras. Ela tocava viola muito bem e ensinava a quem não sabia. Havia até uma troupe que era constituída só por senhoras, eram as «Noelistas». Depois desapareceram. As pessoas têm, felizmente, um carinho especial pela nossa família, devido à nossa dedicação aos Reis.


Ao fim de tantos anos a compor para a tradição, não se torna difícil encontrar inspiração para compor, sempre à volta do mesmo?
É, sim. É sempre à volta do Menino Jesus, das estrelinhas, da cabaninha, de Maria, de José. Não podemos sair muito daqui. Eu tenho de transmitir uma mensagem que ajude a quem está a ouvir a imaginar como seria aquela noite em que nasceu o Menino Jesus. Imagino como é que seria essa noite, por exemplo. Claro que às vezes fujo um bocadinho, porque já nem sei o que hei-de dizer.

Depois de 50 anos a escrever para os Reis, nunca se lembrou de reunir essas obras para as publicar?
Sim, ao fim deste tempo lembrei-me que seria interessante fazer isso, só que é complicado. É difícil, porque muitos já lhes perdi o rasto. Fiz letras e músicas para toda a gente. Ainda no outro dia, estava a ensaiar ao piano e um aluno perguntou-me se eu gostava da música que ele estava a tocar. Eu respondi que sim, era bonita. E ele retorquiu-me: «Pois é, é de sua autoria». E eu já nem me lembrava. Quem tem muitas coisas minhas é o Orfeão de Ovar, mas eles também não sabem onde estão. A minha mãe também era assim…

Como é que vê esta nova geração de reiseiros que começam já nas escolas a cantar a tradição?
Agrada-me muito, pois sendo uma tradição iniciada pelo meu avô, de certeza que ele ia gostar. Só fico triste com uma coisa. Este ano li uns versos que diziam «vamos beber a pinguinha e depois se vier a tia e come-se tudo». Não era isto que o meu avô queria, de certeza. Tenho medo que se confunda os Reis com o Carnaval. Cada coisa no seu lugar. Podemos ser alegres sem ser banais. Isto da pinga não liga com o Menino Jesus. A meu ver isto é uma saudação para louvar o que Cristo foi.

O que é que sentiu quando foi demolido o Velho Teatro Ovarense?
Chorei. Àquele teatrinho foram grandes nomes de actores, inclusivamente Maria Matos. E eles tiveram coragem de pôr aquele teatro abaixo. Eu não seria capaz. O edifício era antiquíssimo. Lembrei-me das vezes que ali cantei. O primeiro cinema em Ovar funcionou ali. Acho que os vareiros têm muita culpa de ter a terra que têm. Porque não vivem para a terra, encolhem-se. Ficam a ver os outros a andar e não andam.

Além dos Reis, a sua actividade, aos 80 anos, continua a ser a música?
Sim, eu tenho uma escola, a Academia Amélia Dias Simões, eu dou as aulas de música e a minha filha dá as de ballet.

 

 

 

 

 
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