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13-Jan-2010

Relatos do Haiti: Dizer Adeus


Palavra

O mais recentre relato de Mariana no Facebook:

«Hoje dissemos adeus a 83 amigos e colegas. Triste, mas bonita cerimonia. Conseguimos encontrar fotos dos mais proximos e colocamos num grande quadro, junto aos nomes de todos eles».

Antes:

«Ontem, ao final do dia, o boss da radio decidiu dar o domingo aos novos jornalistas.


Em muito contribuíram as minhas alegações de defesa. Num discurso que pecava por excesso, expliquei ao patrão (forma como o trato na presença de todos, menos da dele) que os 20 jornalistas tinham vindo, um a um, pedir-me para irem a missa neste domingo, alguns mesmo chorando.

Aqui que ninguém nos ouve (só lê), confesso que só três terão feito o pedido e nem um mostrou estar próximo das lágrimas. Um mentirinha inofensiva, com um final feliz: todos foram a missa e eu, finalmente, declarei unilateralmente a minha primeira folga desde o tal dia».

Ler mais in http://mariananohaiti.blogspot.com/

Antes:

«Hoje, mais fissuras no actual escritório que ocupamos. Engenheiros voltaram e ditaram: Evacuação imediata.

Uma hora depois, mais uma réplica, 4.0. Não senti. Tivemos que interromper a rádio (e desmontar tudo) e mudar de escritório.

Agora estamos no fim do mundo do complexo da ONU, junto aos capacetes azuis jordanianos, a uns... 20 minutos da ponta inversa.

Rádio só passa música.»

O anterior: 

«6.1. Se não fosse o companheiro do autocarro a acordar-me, acho que não dava conta. Estava mergulhada no sono. Só esta noite tive que mudar 3 vezes de "cama". Cansada, mas está tudo bem.

Nas ruas a situação é muito dura, claro, mas não é totalmente fiel às notícias que se têm escrito.

ONUSim, é uma crise humanitária. Não, ainda não é uma crise de insegurança e de poder largado nas ruas.» 

O anterior: «Terra voltou a tremer(4.5). Suficiente para corrermos todos para a rua. Estranha a sensação de que a terra está constamente a tremer.

Na maior parte das vezes, é só na nossa cabeca. Colegas nacionais começam a reaparecer aqui na sede. Começamos a perceber que há várias pessoas que estão desaparecidas (e que no dia do terramto já tinham saído da sede). Dois sao da minha equipa»

Mariana Palavra, a jornalista vareira que sobreviveu ao sismo de terça-feira no Haiti, poderia estar a caminho de Portugal, mas disse à mãe que ia ficar para prestar auxílio dentro do que lhe for possível.

A decisão não apanhou a mãe, Estela Palavra, de surpresa. “Não fiquei admirada porque sei que ela tem aquele espírito, ela é assim”, descreve, adicionando que a filha possui “formação em Direitos Humanos e está a fazer um Mestrado subordinado ao tema Desporto para a Paz e Desenvolvimento - O Caso do Haiti”.


A progenitora passou um mau bocado desde que se soube do terramoto até ao momento em que Mariana conseguiu avisar a família de que estava tudo bem. “Não dormi a noite toda”, conta Estela Palavra, que mesmo assim compreende a decisão da filha: “Ela disse-me que não era altura para vir embora”.

Num e-mail para amigos, os momentos que viveu durante o abalo e sublinhou a vontade de ficar naquele país.

"Eram umas 5pm (hora local), eu entretida a escrever a minha tese de mestrado (desporto para a paz e desenvolvimento - o caso do Haiti (…) no escritório (…), quando parece que a terra tremeu. Ainda pensei que era engano. O Haiti tem lá os seus problemas, mas terramotos não constavam na lista", começa por escrever.

"Mas continuava a abanar e todos se atiraram para o chão, para baixo das respectivas secretarias, menos o Patrick, claro, sempre a agir com um certo delay", acrescenta a jornalista que mantém sempre um tom positivo na mensagem e até brinca com as reacções dos colegas que estavam com ela na zona do edifício das Nações Unidas que não ruiu, em Port-au-Prince.

Após o abalo, "todos correram à procura de uma saída", mas Mariana Palavra, que trabalha para a rádio das Nações Unidas, não saiu da sala sem antes arrumar e recolher os papéis da tese de mestrado.

Lá fui, finalmente, descobrir que a saída do edifício estava bloqueada com destroços da parte central (e principal) do edifício que tinha acabado de ruir. A única saída foi uma janela de um terceiro andar, através de um escadote que caiu ali do céu e das mãos de vários militares que tinham conseguido sair dos respectivos escritórios", diz na mensagem.

Mariana Palavra descreve uma confusão generalizada, já que ninguém sabia "bem qual o sítio ideal para os sobreviventes", lembra os gritos da população e que o edifício das Nações Unidas, de seis andares, "passou a um andar, talvez dois, que diferença faz?"
 

“O pior estava à frente dos nossos olhos, durante cerca de setes horas. Todos sabíamos (e sabemos) de cor, quem trabalhava naqueles pisos”, explica.
De madrugada, os sobreviventes foram transferidos para outra base da ONU e pelo caminho perceberam a força do abalo sísmico.


“Casas transformadas em pó, cúpulas/telhados/coberturas de vivendas caídas no meio da estrada, um centro comercial de quatro andares transformados num telhado raso (…) e nas principais artérias da cidade, a população procurou ontem e hoje um canto para dormir nos passeios, na separação das vias, ou no meio da estrada mesmo”.

“Ao longo de vários quilómetros há casas arrasadas, mas ninguém nas operações de salvamento” e hoje, à luz do dia, o cenário “não é pior nem melhor, é igual… sem palavras”, escreveu Mariana ao salientar que a única diferença “é que se vêem os mortos (as vezes amontoados à meia dúzia) deixados à beira da estrada, embora nas ultimas horas já com lençóis por cima dos rostos”.
Mariana Palavra conseguiu também ir à sua casa que ficou de pé e explica que agora tenta manter-se ocupada. Trabalhou na actualização da lista de sobreviventes, leu e-mails dos amigos. “Tudo para não ir dormir tão cedo, tudo para não ter que acordar e ouvir o que todos estamos a espera”, assinalou.

Mariana Palavra trabalha para a rádio da missão da ONU no Haiti e durante seis anos, a jornalista ovarense foi presença assídua no canal de televisão em língua portuguesa da TDM, em Macau. No Haiti, trabalhava na rádio das Nações Unidas.

 
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