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13-Fev-2010

O único em que monarcas são personalidades locais

reiA organização do Carnaval de Ovar diz que este “é o único do país a escolher apenas personalidades locais para os cargos de Rei e Rainha” do evento, o que lhe permite homenagear os foliões mais dedicados da terra e prolongar o espírito da festa.

O presidente da Fundação do Carnaval de Ovar, José Américo Sá Pinto, considera, aliás, que “não tem graça nenhuma convidar uma vedeta das telenovelas que, além de cobrar uma pipa de massa, só cá aparece um dia e depois vai-se embora sem ter contribuído para nada”.

“Havendo reis que são de Ovar, a festa começa mais cedo e dura muito mais tempo”, argumenta, acrescentando: “Como os reis andam sempre por aqui, de cada vez que encontram gente dos grupos de Carnaval é uma festa, com o pessoal a fazer-lhes a vénia e a entrar logo no espírito da coisa”.

O desempenho cumpre-se sem qualquer remuneração e Álvaro Silva, o barbeiro de 70 anos que enverga a coroa em 2010, assegura: “Eu governo por gosto e estou muito honrado por ser o Rei do melhor Carnaval de Portugal”.

Do tempo “mais simples em que qualquer coisa servia de fantasia”, há uma série de histórias pelas quais ficou conhecido, como a daquela vez em que, juntamente com os amigos, vestiu calções brancos e camisola vermelha para entrar num café onde os clientes esperavam pelo jogo do Benfica.

“O meu irmão pesava 120 quilos e fez de Costa Ferreira”, conta Álvaro. “Outro rapaz, para passar por ser o Eusébio, enfarruscou-se todo de preto. O resultado foi que toda a gente ficou na dúvida ao ver aqueles jogadores a correrem por ali quando deviam é estar a jogar na televisão”.

Recentemente apossado de uma série de anéis vistosos que usa todos os dias para atender os súbdi tos na barbearia, o Rei do Carnaval de Ovar exibe-os depois no gesto de silêncio com que revela “um segredo”.

É que o padre Agostinho Félix não sabe, mas as opas que mandou para a tinturaria - “aqueles trajes compridos que os padres usam”, explica - serviram de fantasia há umas décadas atrás.

“O diabo foi quando apareceram ao caminho duas beatas que nos reconheceram a roupa e disseram que aquilo era pecado mortal”, recorda o barbeiro.

“Foram contar ao padre e ele apareceu na loja mais cedo a barafustar, mas o nosso amigo virou-se para ele e disse: «Ó senhor padre, você tem cada uma! As opas não saíram daqui toda a noite». E o padre lá se calou ao vê-las, porque nós já estávamos à espera de barulho e, antes da hora, tínhamos ido pô-las direitinhas no sítio”, contou.

Rosa Augusta, no seu segundo mandato de Rainha, é mais zelosa dos seus segredos, mas conhecem-na pelo “charme e boa disposição” que distribuiu por todo o lado. Quando visita os grupos de Carnaval onde se ultimam os preparativos da festa, encontra sempre alguém com quem já partilhou histórias e ouvem-se as suas gargalhadas na conversinha cúmplice que estabelece com um e outro.

“Uma senhora nunca perde a compostura”, conta a Rainha, nos seus elegantes 62 anos. “Mas não perco um Carnaval e, embora ande nisto há muito tempo, continuo a achar que é a melhor festa do ano, exatamente porque é feita para esquecer crises e tristezas”.

O Rei Álvaro aproxima-se e, de cachimbo na boca, sussurra: “Cuidado! Olhe que a gente não se pode fiar no que ela diz. O Rei tem uma grande panca, mas a Rainha, sem parecer, é bem pior”.

"Se morresse agora, morria feliz. Já concretizei todos os meus sonhos, até o de ser Rei do Carnaval de Ovar." Álvaro Silva, 70 anos, casado e pai de quatro filhos, não podia estar mais feliz com a "honra" de ter ascendido ao trono da festividade que transforma toda uma cidade numa trupe de foliões.

Barbeiro por profissão - que ainda exerce para os fregueses fiéis à sua navalha -, Álvaro Silva sempre teve alma de artista. Cantou, fez teatro e, todos os anos, exibia o seu lado mais sarcástico nas piadas que levava a concurso no corso carnavalesco. Com um currículo invejável de mais de 50 anos a brincar ao Carnaval, é um arquivo vivo, a cores e na primeira pessoa, das tradições e mutações da popular festa vareira.

Álvaro Barbeiro, como é mais conhecido em Ovar, lembra-se de usar máscara nos idos tempos da Ditadura que proibia qualquer tentativa de escárnio e maldizer. E de se ter pavoneado pelas ruas com paramentos de padre, temporariamente desviados do rol de roupa que uma beata se preparava para lavar. Claro que as roupagens tiveram de ser rapidamente devolvidas, quando o pároco soube da graça, mas, ainda assim, foi um momento inesquecível para Álvaro e outros rapazes de Ovar.

"Antes não era nada disto. Era tudo mais simples e improvisado", explica o Rei que aprecia, porém, todas as modernices, incluindo as escolas de samba. "São mulheres bonitas a dançar. É impossível não gostar". O Rei e a Rainha presidem ao Grande Corso de 19 grupos e quatro escolas de samba, num total de mais de dois mil figurantes que somam meses de ensaios.

O sonho de ser Rei do Carnaval era antigo. Chegou mesmo a candidatar-se com uma performance pública, muito aclamada, mas viu o título ser arrebatado por outro candidato. Não esconde que ficou magoado, mas continuou a participar nos desfiles. Quanto a Fundação do Carnaval de Ovar lhe comunicou que seria o Rei de 2010, sentiu que a justiça estava reposta. E cumpre com as suas reais funções como gosta de viver: com um grande sorriso e uma piada sempre pronta.

 

 
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